Pesquise Sua Notícia

Carregando...

terça-feira, 19 de junho de 2012

Filled Under:

Sapo da Amazônia pode levar à cura da AIDS, diz pesquisador

COMPARTILHE


O kambô pode ter a chave para a cura da temida síndrome surgida no século XX

Natural de Guararapes, no interior de São Paulo, o professor Paulo Sérgio Bernarde (na foto) gosta de dizer quer queria ser biólogo “desde criança”. Atuando como professor universitário nos cursos de biologia, agronomia, enfermagem e engenharia florestal no Campus Floresta (Ufac em Cruzeiro do Sul) seu estudo volta-se particularmente para as espécies consideradas nocivas ou “indesejáveis”: cobras, anfíbios, lagartos e morcegos. Paulo Bernarde afirma, e apresenta argumentos de que tais espécies muito mais salvam vidas do que “matam”.
“É muito mais fácil morrer pela mão de um ser humano do que por picada de cobra. Aposto minha vida nisso. No Brasil são assassinadas anualmente mais de 40 mil pessoas, enquanto menos de 150 pessoas chegam a morrer em decorrência de picadas de cobras.”

“Jararactopril” e a “Draculina”

Paulo Bernarde explica que além do já conhecido soro antiofídico, outros medicamentos também podem ser extraídos dos venenos. O captopril, por exemplo, remédio hipertensivo de uso bastante difundido foi isolado a partir do veneno da jararaca.
“O potencial farmacológico é muito grande. Mas se dissermos para as pessoas que o captopril é feito a partir do veneno da jararaca, ninguém vai querer. O ser humano é preconceituoso.”
Outra espécie considerada “injustiçada” são os morcegos hematófagos. A imaginação alimentada pro filmes de vampiros faz com que as pessoas tenham verdadeiro pavor deste animal.
“Sou considerado uma espécie de “advogado do diabo” destas espécies. No Brasil, 90% dos casos de raiva são transmitidos por cães e gatos e da saliva do morcego hematófago, se isolou uma proteína, a “draculina” que pode ajudar pessoas com trombose”, explica.

Kambô pode ter a chave para a cura da AIDS

A capa do livro Anfíbios e Répteis traz em destaque a rã Philomedusa bicolor, o conhecido Kambô. Paulo Bernarde não esconde seu entusiasmo ao falar desta espécie.
“O Kambô eleva o nome do Juruá a nível nacional. Muita gente vem até aqui só para conhecer a ‘vacina do sapo’ por que ele é de ocorrência comum aqui e seu uso difundido entre os povos Pano desta região”.
Segundo o biólogo, a vacina possui propriedades anti-microbianas  comprovadamente eficazes no combate à malária, leishmaniose e doença de chagas. Mas vai mais além:
“Os peptídeos (moléculas) isoladas a partir da secreção do kambô, em uma cultura ‘in vitro´ conseguiram combater o vírus HIV. Ela (a secreção) impede que o vírus penetre na célula humana, sem danificá-la. Ou seja, nesta rã, há um potencial de descoberta da cura da AIDS.”

Bioprospecção e repartição de benefícios

Enquanto a discussão central parece ser a prospecção de gás e petróleo na região do Juruá, Paulo Bernarde é um dos que apontam a biodiversidade como a maior riqueza da floresta, e não o subsolo abaixo dela.
“Para que esta riqueza potencial se transforme em riqueza palpável é necessário muita pesquisa”, defende.
“Temos a proposta de criar um mestrado em biodiversidade, com uma linha de pesquisa em bioprospecção”.
Pesquisas como a do professor Paulo Bernarde sobre a ecologia e o comportamento animal poderão servir de base para pesquisas mais avançadas sobre possíveis medicamentos.
Outra proposta é a criação de um serpentário para reprodução em cativeiro da ‘pico-de-jaca’. O serpentário que produz o soro anti-laquético a partir desta espécie está localizado em Niterói, mas as cobras não estão resistindo e estão morrendo. A ideia do professor seria produzir o soro em Cruzeiro do Sul.
Paulo Bernarde também defende o diálogo com o saber tradicional, como forma de agregar valor à pesquisa científica. Conhecer previamente a potencialidade de plantas e animais a partir da visão dos povos tradicionais, pode significar uma economia significativa de recursos financeiros empenhados na pesquisa, além de focar a atenção dos pesquisadores nos seus potenciais medicinais.
“É fundamental respeitarmos e valorizarmos o saber tradicional. Indígenas e não indígenas são verdadeiras enciclopédias, com o conhecimento agregado de várias gerações. Muita coisa tem fundamento e pode ser explorado. É para isso que hoje existe o CGEN (Conselho de Gestão do Patrimônio Genético) no MMA. O Kambô, por exemplo, é um conhecimento dos povos Pano. Jamais se poderia isolar um medicamento e colocá-lo no mercado sem que eles receberem parte deste lucro, isso seria um roubo. No Brasil tem que ter esta responsabilidade de repassar para estes povos que já conhecem de maneira tradicional o que este recurso tem a oferecer. Porque já é uma pista, uma indicação para o pesquisador. Jamais um pesquisador iria estudar a vacina do sapo sem antes ter ouvido falar sobre a vacina do kambô. Se eles (os indígenas que fazem o uso tradicional) descobriram, então eles merecem parte destes lucros se um dia a indústria farmacêutica produzir um medicamento.”
No próximo dia 28 de junho, o professor Paulo Bernarde lançará o seu segundo livro: “Serpentes Peçonhentas e acidentes ofídicos no Acre”.
Leandro Altheman (Juruá Online)